Receita? Os educadores precisam, com sabor de quero mais!
(Ney Mourão*)
Participei, como aprendiz e como instrutor, em muitas atividades de formação e aperfeiçoamento pela vida afora. Acredito que continuarei participando, nesse mundo incipiente e novo, a que muitos têm chamado de Era da Informação ou Era do Conhecimento.
Cada uma dessas atividades possuía uma característica própria. Algumas mais teóricas, tradicionais, com a clássica organização estrutural: palestrante à frente e platéia, atenta ou não, disposta (ou totalmente indisposta) à sua frente, assistindo-o falar. Outras, um pouco mais moderninhas, onde a platéia está acomodada em uma organização pretensamente mais participativa, em círculos, por exemplo. Recentemente, estive em uma onde toda assistência estava disposta em agrupamentos de mesas com cadeiras. Deu-me a sensação daquelas grandes casas noturnas, onde o garçom circula, atendendo a pedidos de drinques e petiscos. Confesso que fiquei frustrado, por não ter experimentado nenhuma bebidinha saborosa ou ter comido um canapé de qualquer coisa com catupiri durante toda a palestra. Mas o sussurro entre as mesas era bem parecido com o das casas noturnas que, com quase toda certeza, inspiraram aquela disposição ergonômica tão contemporânea.
Há, ainda, as atividades ainda mais modernas, que se autodenominam oficinas ou workshops. Particularmente, tanto como instrutor quanto como aprendiz, são as minhas prediletas. Nelas, a regra básica é a construção, pelos aprendizes, de situações ou objetos que possam solidificar a aprendizagem. Assim, em uma atividade para aprender-se sobre o planejamento escolar, os participante, por exemplo, podem ser levados a elaborar um prático e vivencial plano de aulas.
Até aqui, nada do que eu disse é novidade para ninguém. Como não é novidade uma característica extremamente comum a quase todos os processos formativos que tenho visto, principalmente quando são destinados a educadores – professores ou gestores. Formadores e instrutores adoram dizer – e repetem isso, quase à exaustão - que não devemos dar "receitas” prontas em processos de formação. Devemos, diz esta corrente exponencial do pensamento formativo, “apontar caminhos”, “traçar, em conjunto, orientações”, “fornecer subsídios para o processo indagativo”, dentre outros eufemismos lacônicos.
Como aprendiz, tal discurso gera em mim uma ansiedade imensa. E imagino que isso deva ser comum, em muitos outros, quando observo o rosto estupefato de muitos, ao final de processos de treinamento ou formação. Utilizando uma metáfora culinária, saem todos com uma verdadeira “cara de tacho”, mais mal passada do que quando saíram.
Antes que todas as pedras do meio acadêmico comecem a cair sobre o meu telhado, vamos a mais uma metáfora culinária. Imagine que você ganhe, de presente em um desses concursos que pipocam (uau, mais metáforas!) pela mídia, uma cozinha maravilhosa. O fogão possui forno de seis bocas, grelha automática para assados, luz no visor, acendimento automático, “timer”, regulagem de temperatura personalizada, dentre outras conquistas da tecnologia. Além do fogão, geladeira com portas verticais e dezenas de botões, pia com sensor de sujeira e outras maluquices que a sua imaginação e a verba da emissora permitirem nesse devaneio, você recebeu um imenso pacote com ingredientes variados. Temperos, iguarias, sal, açúcar, farináceos, vegetais, grãos, frutos do mar, da terra e do ar... Tudo de primeiríssima qualidade.
Durante a premiação, para levar tudo pra casa, existe apenas UMA condição: que você prepare um prato, naquele ambiente, e utilizando aqueles ingredientes. Uma personagem de voz metálica e simpática lhe diz, através de um visor distante e frio: “É isso, cozinhe!” Ora, se você tem alguma noção mínima da dosagem do sal, da liga da massa, do tempo necessário para assar, dos temperos certos para utilizar e de como funciona um forno cuja temperatura é regulada por você, é bem provável que o prato saia maravilhoso. Mas há muitos que NUNCA estiveram na cozinha. E aí, sinto muito, é bem provável que a massa desande, que a liga não aconteça, que o que deveria ser uma iguaria acabe saindo uma gororoba insossa ou sem sal. No mais grave dos casos, preparem a brigada de incêndio e evacuem o prédio, pois vem fogo dos grandes por aí! Ou um plantão médico para o pobre cozinheiro, que teve um infarto de aflição, durante o processo!
Tenho visto muitos seminários, congressos e até mesmo cursos em que as pessoas saem com uma incrível carga de informação, sem contudo saberem a aplicabilidade de tudo aquilo. Tenho comprado algumas brigas boas, em alguns, quando me pedem que “jamais passe uma receita”! É claro que nem todo curso ou atividade formativa podem ou devem ser transformados em um gigantesco "workshop" ou oficina. E é claro, também, que uma atividade que exija interação e prática precisa ser elaborada com responsabilidade, bom senso e à luz de teorias confirmadas, éticas. Não se trata, de forma alguma, de um menosprezo à teoria e ao cientificismo. Mas sinto também a necessidade de um "e agora, para onde vamos com tudo isso?".
Quando eu estava aprendendo a guiar um automóvel, estava tendo uma imensa dificuldade em movimentar o pé direito nos pedais - acelerador e freio. Aliás, eu me sentia um polvo disléxico, dislálico, apopléctico, com um braço a menos e com cinco cabeças. Como pode, eu pensava, uma criatura normal conseguir olhar três espelhos e ainda olhar pra frente, manter o volante na posição e trocar de marcha e, além de tudo isso, preocupar-se com três pedais que fazem, cada um, uma coisa diferente? Como pode uma pessoa com apenas dois braços e duas pernas estar com eles em tantos lugares ao mesmo tempo? Por que não era possível apenas sentar-me ali, lindamente e dizer: leva-me?!
Bem, por que estou usando mais essa metáfora? Por que meu instrutor dizia-me, teoricamente: "Deslize suavemente o pé, da direita para a esquerda e vice-versa". Parecia uma sonorização de algum manual – a voz simpática da cozinha megatrônica a mandar-me cozinhar! Levei aulas e aulas com aquilo, até que um amigo, com o carro parado na garagem, deitado lá na frente, parecendo um doido, pegou em meu pé e, deslizando com ele pra lá e pra cá, pediu-me: “Sinta... É assim o movimento. É assim que o seu corpo deve brincar com a sua cabeça. E isso deve ser natural. Passeie com seu carro, como se passeasse com seus pés”. E ele terminou com uma frase decisiva: “É ASSIM QUE EU SEI EXPLICAR COMO SE FAZ!”
Pronto! É isso! Aprendi! Alguém me disse o que fazer com aquela teoria toda! Acho que em vários momentos estamos deslizando suavemente o pé, da direita para a esquerda e muitos instrutores, facilitadores e treinadores, com uma mega-competência, que ninguém em nenhum momento está questionando, estão com receio de pegar em nosso pé e levá-lo ao pedal.
"Receitas", sim, raios! Não sei por que os acadêmicos têm tanto receio delas. Se o nome não é bom, inventem uma nova metáfora! Mas creio que um "como fazer" ou "que tal tentar tal coisa" não é nada antiacadêmico ou insalubre, do ponto de vista da aprendizagem. Estamos repletos de teorias, discursos, mas tenho visto educadores que, como os seus jovens em sala de aula, começam a achar que elas não valem de nada. Fogões imensos de última geração, em cozinhas equipadas com vozes que dizem “Virem-se, meus amores, mas não botem fogo na casa”! Uma receitinha boa, de vez em quando, pelo menos, pode fazer a diferença. Nossas avós deixaram livros maravilhosos, dentro de baús, para nossas mães prepararem bolos e quitutes que adoçam a alma. E isso nunca matou ninguém.
Se não gostam do nome, que sejam as “orientações”, os “caminhos apontados”. Mas que tenham eles um grau de solidez e concretude, para que educadores em processos formativos saiam com cara de bolo de morangos enfeitado de padaria, e não com feia cara de tacho, sem saber o que fazer com a teoria.
Mas que eu gosto de ver uma “receita” ganhar vida e se transformar em sabor, ah, isso eu gosto. E creio que competência em presentear receitas é, de certa forma, um grande saber!
Ney Mourão, jornalista, educador e Consultor em Comunicação e Educação, não tem medo do Lobo Mau. E não tem medo de receitas inteligentes e embasadas em conteúdos e teorias éticas e de valor!)
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