Redação Criativa

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Sexta-feira, 3. Junho 2010
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Paulo Coelho


A pretensa busca da imortalidade


    Quando tinha 15 anos, disse para minha mãe:
    - Descobri minha vocação. Quero ser escritor.
    - Meu filho - respondeu ela, com um ar triste -, seu pai é engenheiro. Ele constrói pontes, conjuntos habitacionais, edifícios. É um homem lógico, razoável, com uma visão precisa do mundo. Você por acaso sabe o que é ser um escritor?
    - Alguém que escreve livros.
    - Seu tio Haroldo, que é médico, também escreve livros. E já publicou alguns. Faça a faculdade de engenharia, e terá tempo para escrever em seus momentos livres.
    - Não, mamãe. Eu quero ser apenas escritor. Não um engenheiro que escreve livros.
    - Mas você já conheceu algum escritor?
    Tive que confessar que nunca estivera perto de um deles.
    - Alguma vez, você viu um escritor?
    Só em fotografias. Os programas de televisão nunca mostravam escritores.
    - Então, meu filho, como você quer ser um escritor, sem saber direito o que é isso?
    Para poder responder à minha mãe, resolvi fazer uma pesquisa por conta própria. Eis o que descobri sobre o que era ser escritor, no início dos anos 60:
    Um escritor sempre usa óculos e não se penteia direito. Passa metade de seu tempo com raiva de tudo, e a outra metade deprimido. Vive em bares, discutindo com outros escritores de óculos e depenteados. Fuma cigarros Gauloises, importados, e fala difícil. Tem sempre idéias fantásticas para o seu próprio romance e detesta aquele que acabou de publicar.
    Um escritor tem o dever e a obrigação de jamais ser compreendido por sua geração - ou nunca chegará a ser considerado um gênio. Quanto mais tortuoso for seu caminho, mais chances terá que a posteridade o compreenda, já que está convencido de que nasceu em uma época em que a mediocridade impera.Um escritor faz várias revisões e alterações em cada frase que escreve. O vocabulário de um homem comum é composto por 3.000 palavras; um verdadeiro escritor jamais as utiliza, já que existem outras 189 mil no dicionário, e ele não é um homem comum.
    Apenas outros escritores compreendem o que um escritor quer dizer. Mesmo assim, um escritor detesta secretamente os outros escritores - já que os mesmos estão disputando com ele as poucas vagas que a história da literatura deixa ao longo dos séculos. Então, partindo do princípio de que genialidade é sinônimo de incompreensão, o escritor e seus pares disputam o troféu do livro mais complicado. Será considerado o melhor aquele que conseguiu ser o mais difícil.
    Um escritor passa horas procurando erros gramaticais nos jornais diários e descobre coisas fascinantes e revolucionárias na expressão "Ivo viu a uva". Entende de temas cujos nomes são assustadores: semiótica, epistemologia, neoconcretismo. Quando deseja chocar alguém, diz coisas como "Einstein é burro" ou "Tolstói é o palhaço da burguesia". Todos ficam escandalizados, mas passam a repetir para os outros que a teoria da relatividade está errada, e Tolstói defendia os aristocratas russos.
    Um escritor, para seduzir uma mulher, diz: "sou escritor"  e escreve um poema num guardanapo. Funciona sempre. Neste poema, ele usa a palavra "convescote", só para provocar. As mulheres mais ousadas perguntam o que significa, e ele responde, orgulhoso: "os ignorantes usam a expressão "picnic", pois estão querendo destruir a nossa língua com anglicanismos. A mulher já não ousa perguntar o que é anglicanismo.
    Um escritor precisa ganhar seu sustento. Por causa de sua vasta cultura, sempre consegue emprego como crítico literário. É neste momento que ele mostra sua magnanimidade, escrevendo sobre os livros de seus pares. Metade da crítica é composta  de citações de teóricos estrangeiros; a outra metade são as tais análises de frases, sempre empregando termos como "o corte epistemológico" ou "a visão integrada num eixo correspondente". Quem lê a crítica comenta: "que sujeito culto". E não compra o livro, porque não vai saber como continuar a leitura, quando o corte epistemológico aparecer.
    Um escritor, quando convidado a depor sobre o que está lendo naquele momento, sempre cita um livro que ninguém nunca ouviu falar. Adora explicar sua obra, passando seguidas horas num seminário sobre seu último livro, surpreendendo os presentes com interpretações delirantes sobre o que escreveu. Quem vai a um desses seminários sai normalmente com a sensação de que é mais burro do que pensava.
    Só existe um livro que desperta a admiração unânime do escritor e seus pares: "Ulisses", de James Joyce. O escritor nunca fala mal desse livro, mas, quando alguém lhe pergunta do que se trata, ele não consegue explicar direito, deixando dúvidas se realmente o leu. É um absurdo que "Ulisses" jamais seja reeditado, já que todos os escritores o citam como uma obra-prima. Talvez seja a estupidez dos editores, deixando passar a oportunidade de ganhar muito dinheiro com um livro que todo mundo leu e gostou.
    Munido de todas essas informações, voltei à minha mãe e expliquei exatamente o que era  um escritor. Ela ficou surpresa.
    - É mais fácil ser engenheiro - disse ela. - Além do mais, você não usa óculos.
    Mas eu já estava despenteado, com meu pacote de Gauloises no bolso, uma peça de teatro debaixo do braço ("Limites da Resistência", que, para minha alegria, o crítico Yan Michalski definiu como  "o espetáculo mais maluco que já vi") , estudando Hegel, e decidido a ler "Ulisses" de qualquer maneira. Até o dia em que Raul Seixas apareceu, retirou-me da busca da imortalidade e me colocou de novo no caminho das pessoas comuns.


paulocoelho
Paulo Coelho
é escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. Entre seus livros mais conhecidos estão "Brida", "O alquimista" e "Diário de um mago". Atuou também no teatro, jornalismo e na música, onde compôs sucessos como "Gita" e "Eu nasci há dez mil anos atrás", com Raul Seixas.

 

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